Entre notebooks, desktops, monitores e tablets, 39 produtos da Apple foram retirados do programa de certificação ambiental do governo norte-americano. Os produtos daqui pra frente nem chegarão a ser avaliados. Em um tempo em que a preocupação ambiental é crescente e temas relacionados a sustentabilidade ocupam cada vez mais espaço na mídia, isto é especialmente bizarro. Tentemos entender os motivos.
O EPEAT é uma ferramenta que avalia o ciclo de vida de um produto e o rankeia em função do seu impacto ambiental. Uma série de critérios são avaliados e a quantidade de critérios atendidos determina a pontuação. É requisito para as compras do governo e recomendada por 90% das instituições de ensino dos EUA. A Amazon.com usa esta pontuação para oferecer produtos verdes aos consumidores. O que leva a Apple para fora do programa entretanto não é a falta de vantagens em ser parte dele, é sua incapacidade de atender às exigências para isto.
A certificação exige por exemplo que os aparelhos sejam desmontáveis e que seja possível separar seus componentes para a reciclagem, atributos que os novos produtos da Apple não possuem. O novo MacBook Pro, por exemplo, tem as baterias coladas firmemente na carcaça do aparelho, o que impede a reciclagem de ambas as peças. Toda a montagem da tela neste aparelho também é feita em um único bloco, com adesivos permanentes. A lista de problemas é longa. Nos novos iPads, também é um adesivo que une a tela ao corpo do aparelho, tornando sua desmontagem extremamente complicada.
As baterias do MacBook Pro 2012 (por iFixIt)
Além dos problemas ecológicos, este tipo de construção prejudica o consumidor. Aparelhos fabricados desta maneira são praticamente impossíveis de consertar. Mesmo quando possível, é necessário trocar vários componentes de uma só vez, o que torna os processos mais caros. Exemplo: no novo Macbook Pro, caso a antena WiFi estrague, é necessário substituir toda a metade de cima do notebook incluindo a caríssima tela retina. Este normalmente é um reparo simples. Outro bom exemplo é a impossibilidade de fazer upgrades de disco rígido e memória RAM tanto nos MacBooks Pro e Air. São upgrades extremamente simples e baratos, e que estendem muito a vida útil da máquina e por isto são populares. Nos novos MacBooks estes módulos são proprietários e montados diretamente sobre a placa mãe.
Um Macbook Air aberto. Cadê o HD? (por iFixIt)
Há quem argumente que esta é simplesmente uma decisão de design. Que é necessário fazer estas concessões para que caibam todos os elementos no pouco espaço disponível em aparelhos cada vez mais finos. Permitam-me discordar. É perfeitamente possível fazer produtos incríveis sem abrir mão de coisas importantes como fatores ecológicos e de manutenção. Talvez seja necessário aumentar os aparelhos em um milímetro ou dois, talvez acrescentar alguns gramas no peso final. As diferenças são irrelevantes com a tecnologia atual. Mas não acreditem somente na minha palavra.
O último tablet do Google -o Nexus 7- é exatamente 1mm mais espesso que o iPad, e sua carcaça é unida apenas com clipes de encaixe. Os notebooks Series 9 da Samsung são tão finos e potentes quanto o MacBook Air e permitem reparos e upgrades normalmente. O all-in-one HP Z1 permite que se substituam os componentes sem usar ferramentas ou enviar o aparelho para a manutenção. Os exemplos são incontáveis, e não vem só da concorrência. A própria Apple tem dezenas de aparelhos reconhecidos por serem ao mesmo tempo compactos, fáceis de consertar ou ecologicamente corretos. O primeiro iPad, de apenas 3 anos atrás é um deles. O iPod Nano 3 não possuia quase nenhum adesivo e o desktop MacPro é ridiculamente fácil de ser aberto para troca de discos ou adição de memória. Oras, o Apple II -em 1977!- vinha com os diagramas de todos os seus circuitos no manual.
A Apple ainda possui algumas ações pra reduzir poluentes, caso seu mac estrague eles se encarregam de mandar pra reciclagem, mesmo no Brasil. Ainda assim, o abandono da EPEAT -que a Apple ajudou a estabelecer alguns anos atrás- é sintoma de mudanças maiores. Fazer coisas incríveis não é mais a prioridade, o fundamental para a Apple hoje é controle. Seu ecossistema é fechado, os produtos são extremamente fechados. O que não é problemático por si só. Isto permite uma consistência entre seus produtos que nenhum outro fabricante entrega. Mas há um custo a ser pago por isto. Uma série de coisas não podem ser modificadas ou acessadas sem a benção da empresa (algumas APIs, o próprio hardware). E há punições por tentar. Perda da garantia, dano físico ao equipamento, ter sua empresa retirada da App Store. 15 anos atrás o próprio Steve Jobs encomendou o comercial “Crazy ones” para celebrar o espírito de se atrever contra o status quo. Praticamente o oposto do que a empresa pratica hoje. Não que a empresa seja contra a inovação. Ela só é contra inovar em coisas que não quer você colocando as mãos, nos assuntos dela. Parece sutil, mas é uma diferença brutal de atitude. A cultura da maçã mudou.
Só podemos especular sobre os reais motivos. As explicações mais comuns (“fizeram pelo design” ou “é uma decisão financeira” ou ainda “o mundo mudou”) são demasiado rasas e certamente não contam toda a história. O que é certo é que existem outras maneiras de fazer as coisas. Maneiras melhores. É possível ganhar dinheiro, agradar seus acionistas, crescer e ainda criar produtos verdadeiramente maravilhosos. Criar coisas boas para as pessoas, puxar a inovação, fazer melhor do que já foi feito antes. Pensar diferente, se me perdoam a referência óbvia.
Atualização: Bob Mansfeld, VP de Engenharia de Hardware na Apple, publicou uma carta comunicando que a Apple voltou atrás na decisão e vai continuar usando o EPEAT. O resumo da obra é que a empresa reconhece que sair foi um erro, mas que toda a experiência “acabou estreitando os laços com o EPEAT.” A carta de desculpas pode ser lida na íntegra no site da Apple. (Via The Verge)

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